Israel e Jerusalém

1. Nota Preambular

Uma primeira versão deste artigo foi publicada como post no Facebook (7  de Dezembro de 2017). Revisado, e, portanto, em uma segunda versão, o post se tornou, no dia seguinte (8 de Dezembro de 2017), um artigo no meu blog História da Igreja (basta clicar no título do blog para aceder a essa versão). Essa segunda versão versão teve o título de “Israel e Jerusalém, sua Capital (em tempos modernos, desde 1949)”.

Tanto a primeira como a segunda versão do artigo foram bastante bem recebidas. Por isso, resolvi deixa-los como estão e escrever esta terceira versão do artigo, com um título diferente e uma tentativa de ordenar melhor a apresentação do material – que, nas duas primeiras versões do artigo, não foi dividido em seções e subseções, ficando como um único bloco de texto, só ordenado por parágrafos.

Resolvi, também, nesta seção inicial, preambular, justificar a inclusão deste artigo em um blog de História da Igreja apelando para vários fatos, a saber:

Primeiro, o fato de que o Cristianismo começou como uma seita judaica. Jesus de Nazaré, que posteriormente veio a ser chamado de Jesus Cristo pelos cristãos, nasceu em território judaico (na época controlado pelos romanos). Alguns historiadores consideram que ele nasceu em Nazaré, mas que a tradição, posteriormente, floreou a história para fazer constar que ele havia nascido em Belém, cidade considerada como mais importante (a Cidade de Davi). Maria e José, seus pais eram judeus. O relato bíblico se esforça para fazer com que a mãe de Jesus seja de Belém. A genealogia dos judeus era, em regra, elaborada em relação aos ancestrais masculinos. No caso de Jesus, porém, Mateus elabora a genealogia de Jesus pelo lado materno – algo necessário dada a crença de que ele foi concebido em Maria sem a participação de José (embora em outros lugares o Novo Testamento não hesite em se referir a Maria e José como seus pais). Jesus foi educado como um judeu, o Novo Testamento relata algo aparentemente visto como miraculoso, o fato de que ele, aos doze anos, já discutia a Lei Judaica com os doutores da Lei no Templo. Quando resolveu a se tornar um mestre e pregador itinerante, ele, segundo o relato do Novo Testamento, se fez batizar por João Batista, no Rio Jordão. Escolheu para si doze discípulos que eram, todos eles, sem exceção, judeus. Em seu ministério, frequentou o Templo e ensinou nas sinagogas. Sua mensagem e sua atitude foram mal vistas pelas lideranças religiosas judaicas e, segundo tudo indica, estas acabaram se tornando responsáveis pela sua morte por crucificação. Consta do Novo Testamento que, na cruz de Jesus, havia uma inscrição que, com ironia ou não, o designava como o Rei dos Judeus. A gênese do Cristianismo se situa, portanto, claramente dentro do Judaísmo.

Segundo, depois da morte de Jesus os onze discípulos começaram a pregar a mensagem de que ele havia ressuscitado, ascendido aos céus, e que voltaria, para julgar os vivos e os mortos, para os judeus. A experiência do Pentecostes, em que Pedro discursou, é, segundo o relato do livro de Atos, totalmente dirigida aos judeus, que, não contentes com haverem conseguido obter das autoridades romanas (Pilatos, no caso) a sentença de morte para Jesus, continuaram a perseguir os seus seguidores, sendo um deles, Estêvão, apedrejado por um grupo de judeus que tinha Saulo de Tarso, judeu proeminente, à frente – o mesmo que, depois, se converteu e teve seu nome alterado para Paulo.

Terceiro, parece provável, com base no relato bíblico, que, se Paulo, uma vez convertido, não tivesse decidido levar aos gentios (não-judeus) a mensagem acerca do significado da morte e da ressurreição de Jesus, o Cristianismo teria continuado uma seita judaica, podendo ou não ter desaparecido ao longo do primeiro século de nossa época.

Quarto, mesmo depois de o Cristianismo haver basicamente se separado do Judaísmo, assumindo identidade própria e autônoma, algo que aparentemente se deu, em definitivo, por ocasião da Guerra Judaico-Romana de 70-74 AD, em que os judeus foram expulsos da Palestina e o seu Templo (o segundo) foi destruído, os cristãos, agora identificados como membros de um movimento religioso que, embora tivesse raízes judaicas, havia se tornado autônomo, os cristãos aceitaram como suas, e as absorveram, as Escrituras Judaicas, que foram renomeadas de Velho Testamento, quando os cristãos reconheceram um certo número de escritos próprios como também sagrados e os nomearam Novo Testamento, insistindo no fato que várias profecias do Velho Testamento haviam tido cumprimento em Jesus de Nazaré e que a Igreja Cristã era herdeira da eleição que, no Velho Testamento, era ocupada pelo povo judeu.

Quinto, dados esses desenvolvimentos, as duas religiões, a judaica e a cristã, embora concorrentes e rivais, acabaram por ficar inevitável e definitivamente entrelaçadas, havendo, até hoje, cristãos, em regra conservadores, que consideram que várias das profecias do Velho Testamento e do livro de Apocalipse no Novo Testamento estão, por assim dizer, ainda em aberto (i.e., não tendo ainda sido cumpridas), devendo elas ser cumpridas no “final dos tempos”, que não chegará sem que antes os judeus voltem para a Palestina, lá reconstituam sua nação, com capital em Jerusalém, que, para tanto, precisaria ou pelo menos deveria (segundo se afirma hoje) ser una e indivisível.

Essas cinco considerações justificam, plenamente, a meu ver, a inclusão deste artigo em um blog de História da Igreja Cristã [lugar em que originalmente foi publicado em 7 de Dezembro de 2017 – nota acrescentada em 2018].

2. A História do Povo Judeu: Primeiros Dois Milênios

A história do povo judeu é longa e cheia de percalços. Uma boa parte dela é narrada nas Escrituras Judaicas (ou o Velho Testamento da Bíblia Cristã), sem, naturalmente, a pretendida objetividade da historiografia moderna. A história do povo judeu registrada no Velho Testamento é narrada para mostrar que o povo judeu é o povo eleito de Deus, isto é, o povo escolhido por Deus (chamado de YHWH, no Velho Testamento) para executar, aqui na terra, e na história, a vontade divina, ao qual Deus teria dado um território (Canaã, a Terra Prometida, hoje a Palestina) e uma missão, cuja natureza é muito discutida.

É muito difícil fazer sentido e compatibilizar as várias genealogias e os dados históricos contidos no Velho Testamento. Em regra, estima-se que, de Abrahão até a formação do reino de Israel, sob Saul, tenhamos um período de mais ou menos mil anos – o primeiro milênio da História do Povo Judeu.

Esse povo oportunamente se tornou um reino (por volta de 1000 AC), sob Saul, depois Davi, depois Salomão, filho de Davi, e outros reis menos conhecidos. Em um dado momento o reino se dividiu em dois, o do Norte e o do Sul, o primeiro chamado de Israel, o outro, de Judá (este com a capital em Jerusalém). Cada um dos dois reinos foi dominado, em diferentes momentos, por potências estrangeiras: o do Norte, pela Assíria, o do Sul, pela Babilônia. Nesses momentos de dominação, boa parte da população judaica foi deslocada para os países que conquistaram os territórios que os judeus consideravam seus, ou para outros lugares, depois voltou, pelo menos em parte, para a Palestina. Em meados do último milênio antes de Cristo, Jerusalém, perto de Belém, cidade que a tradição considera como a Cidade de Davi, se firmou como a capital do que restou do território judeu.

Em algum momento, mais para o final do primeiro milênio antes de Cristo, a Palestina veio a ser ocupada pelos Romanos, que usavam, em regra, testas de ferro judeus para governar a província (como era o caso do tristemente conhecido Herodes).

Na já mencionada Guerra Judaico-Romana de 70-74, agora já na Era Cristã (AD), os judeus foram derrotados e expulsos da Palestina. Durante a guerra, o seu templo (que já era o segundo, construído depois do cativeiro babilônico) foi mais uma vez destruído, nunca mais tendo sido reconstruído desde então. Hoje, existem apenas suas ruínas – das quais o chamado Muro das Lamentações é a parte mais famosa. Com a expulsão dos Judeus da Palestina, em 70-74, começou o período chamado da chamada Diáspora, termo que pode ser traduzido como Espalhamento. Os judeus que habitavam a Palestina se espalharam pelo mundo inteiro. (Quando dos cativeiros anteriores, houve, evidentemente, um certo espalhamento dos judeus pelo mundo daquela época. Vou usar o termo “Diáspora”, porém, para me referir ao espalhamento que aconteceu depois da virtual destruição de Jerusalém pelos romanos e da expulsão dos judeus da Palestina.)

Assim, de Abrahão (quando teria começado a história do povo judeu) até sua Diáspora, em 70-74 AD, temos um período de mais ou menos dois mil anos.

3. A História dos Judeus: Os Dois Milênios mais Recentes

De 70-74 AD até hoje, temos outro período de mais ou menos cerca de dois mil anos (um pouco menos). Ao todo, a História do Povo Judeu parece cobrir quatro milênios. Convenhamos que não é pouco. É basicamente o dobro da História do Povo Cristão.

Por dois mil anos, depois da queda de Jerusalém, os judeus ficaram espalhados (“diasporados”) pelo mundo. Foram perseguidos quase em todo lugar em que decidiram se estabelecer. Isso se deu, em parte, porque, apesar de todas as suas desgraças, os judeus continuaram a se considerar o Povo Escolhido de Deus, ou seja, um contingente humano especial, destinado a um grande destino, infinitamente superior ao das demais nações (que constituíam os “gentios” – termo que quer dizer simplesmente “não judeu”).

É mais fácil contar a História do Povo Judeu nos primeiros dois mil anos, porque, de certo modo, apesar de, no início, esse povo ser nômade, e não sedentário, e a despeito dos dois cativeiros (sem contar o cativeiro preliminar no Egito), havia um povo judeu bem identificado e mais ou menos concentrado em um território relativamente bem delimitado.

É bem mais difícil contar a história dos dois milênios seguintes, porque o povo judeu está espalhado pelo mundo inteiro, não estando agrupado em um só território. Durante esse período, embora continue a haver um povo judeu, esse povo não está constituído em nação, muito menos sendo identificado com um só território. O povo judeu, ao longo da maior parte desses dois mil anos mais recentes, é composto de “judeus errantes”, por assim dizer. (Quem não conhece, pode consultar o que é a lenda do Judeu Errante [Wandering Jew] na Wikipedia.)

Certo ou errado, os cristãos, porém, viera a se considerar os verdadeiros herdeiros da História dos Judeus, alegando (principalmente com base em argumentos de Paulo, o apóstolo tardio) que Deus abandonou os judeus, por causa de sua infidelidade a ele, e transferiu sua escolha ou eleição para o povo cristão, composto predominantemente de gentios (não judeus).

Criou-se, assim, uma rivalidade entre os cristãos, que começaram como uma seita judaica, e os judeus. Os dois movimentos sobreviveram, mas os cristãos se deram melhor, em especial porque vieram a ser escolhidos como a religião preferencial do Império Romano, em 313 AD, pelo Imperador Constantino I, e, depois, a única religião lícita do Império Romano, em 381 AD, por decreto do Imperador Teodósio I. Até o ano 381, o Judaísmo era religião lícita no Império Romano, como eram todas as religiões não-exclusivistas, porque acreditava-se que o Judaísmo era basicamente uma religião étnica, e, por conseguinte, não inclinada à atividade missionária e ao proselitismo. Mas com o decreto de Teodósio I, em 381, declarando o Cristianismo a única religião lícita do Império, ato que, na prática, fez do Cristianismo a religião oficial do Império, o Judaísmo se tornou, automaticamente, uma religião ilícita (junto de todas as demais, o Cristianismo sendo a única exceção).

A partir desse momento, fim do século 4, os cristãos começaram a perseguir os judeus, algo que continuou durante toda a história do Cristianismo. Ou seja: de religião perseguida, o Cristianismo se tornou uma religião que passou a perseguir o Judaísmo e as religiões pagãs.

A acusação principal dos cristãos em relação aos judeus era que estes haviam sido os principais responsáveis pela morte de Jesus de Nazaré, que, na fé cristã, veio, oportunamente, a ser considerado o Cristo (termo grego que quer dizer Messias, Ungido, etc.) e, a partir dos Concílios de Nicéia, em 325, e Calcedônia, em 451, uma das pessoas da Trindade – isto é, o próprio Deus. A julgar pelo texto dos livros que vieram a constituir o Novo Testamento da Bíblia Cristã, a acusação procede. Resta saber se o Novo Testamento é confiável como fonte de informação histórica – mas essa é uma outra questão.

Durante a chamada Reforma Protestante, os judeus sofreram bastante, em especial nas mãos de Lutero, que escreveu tratados detestáveis contra eles, sendo, por essa razão, considerado por alguns como o pai do antissemitismo moderno, que frutificou no Nazismo. Em pleno século das Luzes, o século do Iluminismo, os judeus também foram difamados e perseguidos. Voltaire foi um dos grandes difamadores dos judeus nesse período. Mas ele disse coisas semelhantes sobre a Igreja Católica, segundo ele a infame, que deveria ser esmagada… (“Écrasez l’infâme”, foi o seu brado).

Nessas idas e vindas, chegamos ao limiar do século 20.

4. Destaque para os Últimos 120 Anos

Embora os últimos 120 anos da História do Povo Judeu façam parte dos milênios cobertos na seção anterior, eles receberão destaque aqui. Esses 120 anos serão divididos em seis blocos, seguindo de perto a sugestão de Martin Bunton, em seu livro The Palestinian – Israeli Conflict: A Very Short Introduction (Oxford University Press, 2013), que divide o período basicamente dessa forma:

  1. 1897-1917: A Palestina sob Controle Otomano (Turco)
  2. 1917-1937: A Palestina sob Controle Britânico
  3. 1937-1947: A Palestina Dividida
  4. 1947-1967: A ONU, o Estado de Israel e a Palestina
  5. 1967-1987: Israel Basicamente Toma Controle da Palestina
  6. 1987-2017: A Era do Terrorismo e dos Levantes (Intifadas)

Como se vê, há quatro períodos de 20 anos, um de 10 e um, final, de 30. (No livro de Bunton, publicado em 2013, o último período só tem 20 anos, terminando em 2007, fato que faz com que o período inteiro tenha 110 e não 120 anos).

A. 1897-1917: A Palestina sob Controle Otomano (Turco)

Há exatamente 120 anos, em 1897, foi criado, na cidade de Basileia, na Suíça, a Organização Sionista Mundial (World Zionist Organization). O movimento que essa organização começou a patrocinar foi chamado de Sionismo. Seu objetivo era envidar esforços para reunir o povo judeu, na forma de uma nação, na Palestina – ou, como se formulou na época, “criar uma lar nacional (a national home) para os judeus na Palestina”.

O líder do movimento Sionista foi Theodor Hertzl (1860-1904), um jornalista de nacionalidade húngara. A Hungria pertencia, na época, ao Império Austro-Húngaro, que foi governado, durante toda a vida de Hertzl, por Francisco José (Franz Joseph), que foi imperador desse império de 1848 até sua morte, em 1916, durante a Primeira Guerra. (Franz Joseph foi casado com a Imperatriz Elizabeth, a “Sissi”, representada por Romy Schneider na série de três filmes que ficaram famosos nos anos 50.)

Hertzl se convenceu, enquanto trabalhava na França, que a melhor forma de proteger os judeus do sentimento antissemita que já existia em boa parte dos países europeus era criando-lhes uma pátria que pudessem chamar de sua. O evento que criou a Organização Sionista Mundial contou com mais de duzentos delegados, a maior parte deles judeus oriundos do Leste Europeu.

Criou-se, na ocasião, o slogan “Uma terra sem povo para um povo sem terra” (A land without a people for a people without a land).

Não teríamos os conflitos que temos hoje na região, e que começaram a existir, de forma sistemática, desde 1897, se a Palestina fosse realmente uma terra sem um povo. Não era. Ela era habitada principalmente por populações árabes, que vieram a ser conhecidas como “o povo palestino”. O que não havia, na Palestina, na ocasião, era uma nação ou um estado.

A Palestina era, naquela época, parte do Império Otomano, controlado pelos Turcos – os mesmos turcos que, em 1453, passaram a controlar Constantinopla e boa parte do Oriente Médio. Como os Turcos eram, majoritariamente, muçulmanos, da mesma forma que a maior parte da população palestina, era de esperar que o Império Otomano não visse com bons olhos a proposta do movimento sionista.

Embora alguns judeus começassem a imigrar para a Palestina a partir dos países em que moravam, em especial na Europa (com concentração no Leste Europeu), o movimento não deslanchou durante os primeiros vinte anos de sua existência.

B. 1917-1939: A Palestina sob Controle Britânico

A partir do final da Primeira Guerra Mundial os aliados derrotaram os turcos otomanos e a Grã-Bretanha, um dos países vitoriosos na guerra, recebeu o mandato de controlar a Palestina, que passou a integrar o Império Britânico (do qual se dizia, em virtude de sua extensão, que o Sol nunca deixava de iluminar uma parte dele, em qualquer ponto das 24 horas de um dia).

Já em 1917, no dia 2 de Novembro, com o final da Primeira Guerra Mundial já em vista, os britânicos emitiram um comunicado, chamado de Declaração de Balfour, no qual se comprometem a criar, na Palestina, um “Lar Nacional” (National Home”) para os judeus. Essa declaração veio ao encontro das pretensões do Movimento Sionista. O comunicado foi publicado na imprensa uma semana depois.

Afirmaram, porém, os britânicos que isso seria feito sem prejuízo dos direitos civis e religiosos dos demais povos que habitavam a Palestina – quase todos eles árabes e muçulmanos. Como isso seria feito não foi esclarecido.

Eis a parte relevante do texto da Declaração de Balfour:

 “O governo de Sua Majestade vê de forma positiva o estabelecimento, na Palestina, de um lar nacional para o povo judeu, e envidará seus melhores esforços para facilitar a realização desse objetivo, ficando claro, porém, que nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos de comunidades não judaicas existentes na Palestina, bem como os direitos e a condição política desfrutada pelos judeus em qualquer outro país”. [https://en.wikipedia.org/wiki/Balfour_Declaration]

Registre-se que quando essa declaração foi feita a guerra não havia terminado ainda, e, portanto, a Inglaterra não havia ainda recebido o seu mandato em relação à Palestina. Mas a Inglaterra estava em guerra com o Império Otomano desde Novembro de 1914, quando a Primeira Guerra Mundial teve início.

Terminada a guerra, os britânicos atribuíram direitos iguais aos judeus que já habitavam a Palestina, tendo se mudado para lá em especial a partir da criação do Movimento Sionista.

De 1917 até 1937, quando a Segunda Guerra Mundial estava às portas, houve um período de relativa tranquilidade na Palestina.

Durante a guerra, muitos judeus europeus se mudaram para a Palestina, diante do antissemitismo nazista (e, portanto, para fugir do Holocausto) e diante das perseguições (pogroms) em outros países (especialmente na Rússia).

C. 1939/1945-presente: A Situação depois da Segunda Guerra

a. A Criação do Novo Estado de Israel: 1945-1948

Depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Organização das Nações Unidas (ONU ) foi criada para substituir a Liga das Nações, criada depois da Primeira Guerra. Em um de seus primeiros atos, a ONU decidiu criar, agora não mais apenas um Lar Nacional, mas, sim, um Estado judeu na Palestina. Obviamente, os povos que lá habitavam e seus aliados não queriam que isso acontecesse, mas os grandes vencedores da Segunda Guerra, Rússia, Inglaterra e Estados Unidos acabaram conseguindo criar esse estado no final de 1947 (em 29 de Novembro). Isso significava que haveria, na região, um Estado Judaico e um Estado Palestino. Em 1921 a Grã-Bretanha havia determinado que as terras na parte a Leste do Rio Jordão não deveriam ser ocupadas pelos judeus. Ao longo de 1948/1949 houve negociações para decidir os limites dos respectivos territórios dos dois Estados. Mas em 14 de Maio de 1948, horas antes de expirar o chamado Mandado da Grã-Bretanha sobre a região, foi proclamada, pelos judeus, a Independência (na realidade, a criação formal) do Estado de Israel. No mesmo dia os Estados Unidos reconheceram de facto o novo estado e em 17 de Maio a União Soviética foi além e o reconheceu de jure.

Uma proposta de criação de dois estados, um judeu e um palestino, feita pelos britânicos em 1937, teria dado aos judeus cerca de 25% do território da Palestina e, para os povos árabes que ali habitam (os chamados palestinos), 75%, ou seja, 3/4 do território. Os judeus, que anteriormente não tinham território algum, aceitaram a proposta, apesar de ela representar bem menos do que eles pretendiam. Jerusalém, por exemplo, que sempre foi considerada a Cidade Santa dos judeus, ficaria em território que seria atribuído aos palestinos. Mas estes recusaram a proposta.

b. A Guerra de Independência de Israel: 1948-1949

No dia seguinte ao da proclamação da Independência de Israel, ou seja, em 15 de Maio de 1948, uma coalisão composta por Síria, Iraque, Transjordânia, Líbano e Egito atacou Israel, naquela que veio a ser chamada de Guerra Árabe-Israeli, ou, simplesmente, Guerra da Independência de Israel de 1948-1949. O objetivo dos palestinos e seus aliados era varrer do mapa o estado dos judeus — agora oficialmente proclamado independente e nomeado Israel. Segundo Paul Johnson (A History of the Jews) a Liga Árabe declarou literalmente: “Esta será uma guerra de exterminação e um massacre sem precedentes na história”.

Embora o estado judaico estivesse ainda em sua primeira infância, tendo apenas um dia de existência, não estando nem mesmo totalmente organizado, tendo uma força militar relativamente pequena, e com armamentos inferiores aos dos palestinos e seus aliados, Israel se organizou rapidamente e venceu a guerra, com o apoio de alguns aliados. Israel poderia, na realidade, ter varrido do mapa os palestinos, mas não o fez. O resultado líquido dessa chamada Guerra da Independência foi que Israel aumentou consideravelmente o território sob seu controle. A divisão que, em 1937, havia sido sugerida como 25% para os judeus e 75% para os palestinos, agora era mais ou menos 70% dos judeus e 30% dos palestinos: Israel ganhou 60% dos territórios que haviam sido prometidos aos palestinos, mas eles recusaram.

Finda a Guerra da Independência (vários armistícios foram assinados ao longo de 1949), houve perseguição aos judeus que viviam em outros países árabes e eles se mudaram, em grande medida, para o Estado de Israel. Quanto aos territórios, houve várias negociações, no período posterior ao fim da guerra, em que Israel esteve disposto a devolver alguns territórios conquistados na Guerra da Independência, mas os Palestinos queriam tudo de volta e se negavam a reconhecer a existência de jure do estado de Israel e reivindicam controle total da Palestina, assim fazendo com que até mesmo a existência de facto de Israel também fosse reduzida a nada.

c. Jerusalém Declarada a Capital de Israel: 13/1/1949

Em 13 de Janeiro de 1949 Jerusalém é declarada a capital do Estado de Israel e o controle de Jerusalém é dividido entre Israel (parte ocidental da cidade) e a Jordânia (parte oriental da cidade).

[Parêntese: aquilo que Donald Trump reconheceu em 6/12/2017 é uma realidade que foi declarada em 13/1/1949.]

d. A Guerra dos Seis Dias: Junho de 1967

Em Maio de 1967 veio nova guerra, essa declarada pelo Egito, com o apoio de inúmeras nações árabes, envolvendo, inicialmente, a Península do Sinai, o Canal de Suez, etc. – a chamada Guerra dos Seis Dias. A guerra propriamente dita durou de 5 a 10 de Junho. Israel faz um ataque abrangente contra o Egito, a Jordânia e a Síria e terminou a guerra em seis dias.. Agora Israel estava preparado para enfrentar seus vizinhos e liquidou a guerra em menos de uma semana, conseguindo bem mais territórios do que tinha antes.

e. Jerusalém, a Capital de Israel, é Reunificada: 7/6/1967

Tendo derrotado a Jordânia, que controlava a parte oriental de Jerusalém, Israel reunificou toda a cidade, mantendo-a sob seu comando. Isso se deu em 7 de junho de 1967,  mas a reunificação da cidade foi comunicado oficialmente ao mundo apenas em 28 de Junho de 1967.

Diz Paul Johnson, op.cit., sobre o resultado da Guerra dos Seis Dias:

“Ao final da Guerra dos Seis Dias, Israel havia unificado Jerusalém e ocupado a margem esquerda inteira do Jordão. Ocupou também o Planalto de Golan na Síria e chegou a 30 milhas de Damasco. Na frente ocidental, ocupou toda a planície do Sinai. O resultado líquido da operação foi que, pela primeira vez, Israel conquistou fronteiras defensáveis, bem como uma capital unificada, e a maior parte dos seus famosos territórios históricos”.

Em 12 de junho de 1967 Israel declarou, formalmente, que não voltaria a reconhecer as linhas limítrofes firmadas no Armistício de 1949 — a menos que isso se desse como resultado de um processo de negociação amplo e formal, que reconhecesse a existência de Israel e lhe garantisse fronteiras permanentes. Israel agora faz exigências a partir de uma posição de força, pois controlava cerca de 80% dos territórios da Palestina.

Em 1 de Setembro de 1967, os líderes dos países árabes se reúnem em Kartum, no Sudão, e dão sua resposta a Israel, aprovando uma declaração curta e grossa chamado de “The Three No’s”: “No recognition of Israel. No negotiations with Israel. No peace with Israel.” Note-se bem: esta foi a posição oficial dos países árabes.

Apesar disso, houve novas negociações, correção de algumas linhas divisórias, um breve período de paz.

f. A Guerra de Yom Kippur: 6-24/10/1973

Porém, durante o feriado religioso judaico de Yom Kippur de 1973, houve nova guerra, a terceira, Nesta Israel foi apanhado de surpresa, mas reagiu e venceu a guerra, ampliando seus territórios ainda mais. Essa foi a chamada Guerra de Yom Kippur, que durou de 6 a 24 de Outubro de 1973 e foi liderada pelo Egito e pela Síria, com o apoio de Força Expedicionária dos outros países árabes. O acordo de desengajamento militar com o Egito só foi assinado em 18 de Janeiro de 1974.

g. O Acordo de Camp David: 18/9/1978

Depois dessa guerra houve uma tentativa séria de negociação, em 1978, liderada pelo presidente americano Jimmy Carter, negociação que resultou no chamado de Acordo de Camp David, firmado, entre Israel e o Egito, em 18 de Setembro de 1978. Do acordo resultou a retirada de Israel do Sinai e sua devolução ao Egito, basicamente encerrando as hostilidades entre os dois países. Os palestinos não quiseram participar das negociações que levaram ao acordo. Nessa ocasião lhes foi proposta uma solução dos conflitos que envolvia (como proposto pela Grã-Bretanha em 1917), a existência de dois estados independentes, Israel e um estado palestino. Mas os palestinos insistiam numa “solução” que envolvesse a dissolução do Estado de Israel e a devolução dos territórios ocupados por Israel aos palestinos. Hoje, os palestinos lutam por isso, que lhes foi proposto, em 1978, mas eles então recusaram.

h. A Invasão do Líbano e as Intifadas: 1982-presente

De lá para cá, têm havido várias operações militares entre Israel e seus vizinhos. Entre Junho e Dezembro de 1982, por exemplo, Israel invadiu o Sul do Líbano para combater as forças da Organização para a Libertação da Palestina. Na verdade, só em 24 de Maio de 2000 Israel veio a retirar totalmente suas forças do Sul do Líbano. Em 1987 os vizinhos palestinos atacaram Israel nas chamadas Intifadas. E assim teve continuidade o conturbado relacionamento de Israel com seus vizinhos árabes.

Encaminho-me para a conclusão.

Em junho de 1967, em decorrência de uma guerra formalmente declarada pelos árabes e provocada por eles, Israel ganhou vários novos territórios e unificou a cidade de Jerusalém, que, logo depois da criação do Estado de Israel, em 1947/1948, foi declarada, em 13/1/1949, sua capital (embora à época Israel só controlasse a parte ocidental da cidade). Em 7/6/1967 Jerusalém é reunificada, durante a Guerra dos Seis Dias.

Várias vezes, em especial nos Acordos de Camp David, os palestinos tiveram ocasião de ter um estado palestino reconhecido junto do estado judeu (Israel). Recusaram-se a aceitar essa solução, porque ela referendava a existência de Israel.

5. Conclusão

Agora hoje [07/12/2017], momento em que Israel detém virtualmente a hegemonia da Palestina, os palestinos querem impor condições, fazendo de conta que Israel é intransigente por não aceitar os dois estados. A situação de fato, agora, é que Israel controla a maior parte da Palestina, detém controle unificado de Jerusalém, que é sua capital oficial desde 1949.

Que razão oferecem os palestinos hoje para que Israel aceite os dois estados e novamente divida Jerusalém, admitindo que a cidade seja também a capital do possível estado palestino? Só oferecem parar com o terrorismo — mas não têm moral nem credibilidade para oferecer isso, nem autoridade sobre suas várias facções para garantir que, fosse essa solução aceita por Israel, os palestinos, como um todo a respeitariam.

O que Donald Trump, o controvertido presidente dos EUA fez ontem [6/12/2017], foi apenas declarar que os EUA reconhecem como capital de Israel aquela que já é a capital daquele estado há quase 60 anos. Quando Bill Clinton foi presidente dos EUA ele propôs e o congresso americano aprovou que isso fosse feito. Mas de lá para cá aquilo que o congresso americano aprovou vem tendo sua implementação adiada, a cada seis meses. Trump simplesmente resolveu acabar com a hipocrisia e a palhaçada. Que vai levar algum tempo para mudar a Embaixada Americana, não resta dúvida. Essa é uma operação complexa, em especial num território complicado como Israel. Mas que vai ser mudada, vai. Quem não está contente, tem um direito: espernear. Pero no más que eso.

É isso.

Em São Paulo, 20 de Dezembro de 2018.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s